sábado, 20 de março de 2010

Droga!



Família. Segundo Aristóteles o Estado é formado pelo ajuntamento, comunhão, interação, coexistência delas. Não com essas palavras, mas diz isso. Nossa casa, nossa família, é o primeiro contato com o que é sociedade. Compartilhamos de um espaço com regras de conduta e de tratamento. Temos limites impostos por aqueles que representam a autoridade familiar.
Um fato é que a sociedade é o reflexo do que ocorre entre os domínios do lar. Como um quebra cabeças. Nossa casa é uma peça na figura macro que é a sociedade. O que sofremos como família reflete na sociedade. A célula/família uma vez doente, debilita o corpo/sociedade. Então, concluo que, falar da família é falar da sociedade. Então vamos à minha.

Sou filho de muitas mães, sobrinho de muitas tias, neto de uma só avó, primo de muitos primos/irmãos, irmão de muitos irmãos/primos e marido de uma só (até que nos convertamos ao Islã). Você pode estar sentindo falta de “pai” nesse parágrafo, mas eu não sinto essa falta nem no parágrafo nem na minha vida. Hoje, não mais. Não o conheço nem por foto. Olhar pra mim e imaginá-lo me basta. Minha família se é resumo de sociedade, nunca foi idealizada por nenhum Karl Marx, nem Weber ou Durkheim.

Parece que vamos degenerando, vamos perdendo-nos, não nos sentindo mais. Mas, ora, estou falando de quem agora? Falo da sociedade, que se fecha e que não vê as suas doenças, suas feridas cobertas de pequenos mosquitos chatos e que nada cobre o suficiente para que não as permita pousar e contribuir pra infeccionar. Mas, ora, isso também serviria para falar de família. De crônica parece que passo à filosofia neste momento. E já que usei Aristóteles no início, usarei de novo, para filosofar. Ele, Aristóteles, diz que a família se divide em homem, mulher, filhos e escravos. Mas, eu diria que hoje nossa família se divide em homem escravo de si, mulher escrava da casa e filhos escravos do mundo. De um modo geral.

A sociedade em que vivemos, disfuncional como está, não encontra pai e nem mãe que tenha pulso. O que temos por família hoje, disfuncional como está, não encontra governante que tenha pulso.

Falo de quê agora? Família ou Sociedade? Falar de um é falar de outro? Então, vamos mais uma vez á minha família.

Um de meus irmãos, que mais acima cito como irmão/primo, pois vivendo tão distante, estando tão perto, tem em mim um sentimento de primo que não encontro mais. Uma doença já o afetou. E não tem cura. Meu irmão é hoje, mais um usuário de drogas. E acaba de ser preso por conta disso. E pergunto: Minha sociedade está doente? Ou minha família está doente? Ou, todos nós (família) estamos doentes junto com ele? Ou todos nós sociedade estamos doentes como ele? Ou a sociedade já não sente esse tipo de doença, se acostumou? Anestesiou-se? Está imune ao remorso, à compaixão?
O que eu sei é que enquanto a minha família não sofrer com mazela alguma, eu fico bem, de bem. Mas quando ela se vê de cara com seu mal, dói como se a dor fosse de uma multidão. Como se fosse a dor de uma sociedade inteira.

Vê-se nas esquinas, vários casos como o do meu irmão. E vários irmãos fazendo pouco caso. E vários casos sem solução.

Falei de quê mesmo? De sociedade ou de família?

Da sua ou da minha?

Droga! Eu não entendo esse texto!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Eu quis cada coisa!

Quando criança, eu quis ser piloto de fórmula 1. Eu quis ser piloto não pelo óbvio, que seria correr e chegar às mais altas velocidades. Não. Eu queria ser piloto pra ser patrocinado. Pra caminhar entre as pessoas com uma roupa diferente e cheia de logotipos. E usar um capacete verde e preto com uma estrela em cima.

Eu quis ser astronauta. Mas não pelo motivo óbvio, que seria ver a terra pequenina e flutuar. Não. Eu queria ser astronauta para me despedir das pessoas antes de entrar no ônibus espacial e fazer um gesto que marcasse, como um beijo na bandeira nacional.

Eu quis ser goleiro. Mas não pelo motivo óbvio, que seria ganhar dinheiro jogando bola. Não. Eu queria ser goleiro pra fazer uma defesa, apontar pra torcida e beijar o escudo do meu time. E lógico, ser patrocinado, claro.

Depois de um tempo. Eu percebi que daria muito trabalho ser essas coisas que eu sonhava. Pensei em algo mais fácil. Pensei em ser cobrador de ônibus. Ficar passeando, sentado, e recebendo dinheiro. Depois vi que era preciso passar o troco, e matemática eu sempre odiei. Fui mais à frente. Vou ser motorista de ônibus. Passear e ainda ser idolatrado pelas crianças que sentam no banco logo atrás dele, naquele mais alto. Depois, percebi que a janela do motorista era pequena demais e ele suava muito, ainda mais num ônibus com um ar-condicionado que não funcionava. Desisti.
Pensei nas coisas que eu mais gostava. Pensei em vender papagaio (pipa), pra ter quantos eu quisesse. Depois vi que papagaio não era coisa que durava muito tempo. Eu ganharia por alguns meses só. Seria pouco dinheiro. Desisti.
Eu queria algo fácil, porém, emocionante. Emocionante, mas seguro. Seguro, mas heróico. Heróico, mas não tanto.

Foi quando eu vi na TV o que eu queria ser! Eu vi um homem bem vestido falando manso. Suas palavras eram tão bem recebidas na minha mente, que eu quis que aquele homem realmente fosse atendido em seu pedido. Ele falava e seus olhos acompanhavam as palavras entre um semicerrar quando eram palavras de paz e um arregalar quando eram palavras de ordem. Ele se mostrou tão amigo. A música ao fundo era tão bem tocada, rolava uma emoção quando se falava de esperança. Depois, para elevar o clima para um momento de celebração de um novo tempo, tocava uma música empolgante com o nome daquele homem. Uma música tão legal que a gente canta antes de dormir e gargalha de tão legal que era. Aquele homem disse tanto ao meu coraçãozinho pré-adolescente que eu determinei naquele momento, dizendo em voz alta - Eu quero ser político!

Eu quis ser político, mas não pelos motivos óbvios, que seriam o dinheiro fácil, viagens, mulheres, casas, carros, gasolina de graça, férias, segunda-feira nunca mais e ser amado pelos eleitores. Não. Eu quis ser político pra ter uma musiquinha com meu nome e um boneco com minha cara e, óbvio, ser patrocinado.

Obrigado meu Deus! Por eu ter sido sempre um bobo.
E por um tempo não saber exatamente o que eu queria.

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